Avante

1 Mar

Avante, sim!

O nosso espírito é morto, morto para as luctas e para a vida. É urgentíssimo, é necessário que elle se avigore, que se revolte.

Um espírito novo de revoltado é como uma granada que rebenta no campo inimigo. É um clarim que vibra num grande descampado, onde um exército de sibaritas ficasse dormindo, tranquillo, voluptuosamente, e que elle, com a sua nota viva, irrequieta, estridula, viesse acordar aquelles espíritos mortos, aniquillados pela inacção.

E não haverá meios em que o espírito e o campo possam sahir d’esse amollecimento desmoralisador e doente? Há-os e muitos.

A velocipedia, a gymnastica, a natação, etc., tudo isso são uns meios bons para o desenvolvimento physico da nossa organisaçao estiolada.

De entre tantos que se me affiguram verdadeiramente notáveis, eu ponho em primeiro lugar a velocipedia, pois que, acho-lhe dois motivos poderosíssimos: o ser útil e o ser agradável.

A velocipedia em estes últimos tempos tem-se generalisado espantosamente.

É pena que ainda o nosso meio burguez olhe para a bicycletta como um instrumento mau e desmoralisador. Mas isto são os espíritos velhos, felizmente, e estes mesmos, em breve se irão habituando a olhal-a mais complacentemente, em vista dos benefícios que d’ella advem.

Como meio de locomuçao hygienica é verdadeiramente superior. Uma viagem que se faça em bicycleta, o individuo respira um ar mais oxigenado, mais puro, o movimento produz a reacção, o calor, e este o trabalho, predispondo o velocipedista para o apetite.

Como exercício muscular é superiormente notável: músculos das pernas, braços e peito desenvolvem-se espantosamente.

Como applicação médica ao corpo enfermo as curas são immensas e notáveis.

A paralisia parcial, rheumatismo, rachitismo, etc., têm tirado do exercício velocipedico resultados maravilhosos.

Mas para que tudo isto se saiba, se vulgarise, é necessário recorrer à imprensa. É por isso que se fundou o “Velocipedista”.

Apresentamo-nos, pois, perfeitamente organisados, perfeitamente disciplinados, sem a menor ideia de ostentação, mas também sem tolas modéstias que nos espíritos novos tão mal cabem, convictos do que valemos na empreza a que nos abalançamos.

Seguiremos passo a passo o progresso da velocipedia, demonstrando a pouco e pouco o alto papel que este meio de locomução virá a representar no futuro e mais para diante abriremos secções novas que, pela sua novidade, serão um ‘clou’ palpitante, um verdadeiro acontecimento em o nosso pequeno meio velocipedico.

Contamos já com valiosíssimas adhesões que de toda a parte nos chegam.

Essas adhesões e esses incitamentos são já o prenúncio d’uma era esplendorosa, que não vem longe, para a velocipedia em Portugal. Avante, pois.

Foi isto o que se escreveu para abrir “O Velocipedista” nos idos de 1893. É precisamente ‘o esplendor da velocipedia’ que nos interessa neste projecto.

2 Respostas to “Avante”

  1. T Março 1, 2012 às 10:56 am #

    Espantoso, 119 anos depois mantém-se actual. Poderia ter sido escrito ontem.

    • miguelbarbot Março 1, 2012 às 11:30 am #

      O melhor é que há ainda muitas outras coisas escritas no jornal, que podemos escrever hoje.

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